Eu, um aglomerado de átomos, a ponderar sobre os átomos que formam eu e você

É incrível até onde podemos ir com o pensamento. A lógica (que é pensamento, por fim matéria) pode te levar de "A" a "B", mas a imaginação te leva a qualquer lugar do universo, como dizia o velho Einstein... Precisamos manter a mente aberta, mas a tal ponto de não deixar transbordar o cerébro para fora (Dawkins). Para podermos hipotetizar novas formas de vida, precisamos entender e estabelecer de comum acordo o que é isso, a vida. E já possuímos uma definição, talvez nao satisfatória para alguns, de que a vida como a conhecemos, a única, a nossa e dos outros organismos terrestres, se baseia nos átomos da tabela periódica.

Não em todos é claro, pois eles precisam possuir algumas propriedades "especiais", como formar longas cadeias estáveis (carbono), doar ou receber energia na forma de eletricidade (comunicação e interatividade que faz o hidrogênio e oxigênio ), formação em conjunto de maior complexidade como o nitrogênio, que é a base dos ácidos nucleicos e aminoácidos, acelerar, dar estrutura e energizar as reações quimícas, um dos papéis do fósforo e o enxofre que faz ligação com algumas proteínas (note que cada vez mais a complexidade e o nível hierárquico aumenta). Aqui temos o acrônimo mnemônico "CHONPS", os elementos básicos para a vida na Terra.

A alguns dias atrás, descobrimos que ao menos um desses átomos, o fósforo (P) talvez possa ser substituído por arsênico (As) e desempenhar funções semelhantes num organismo vivo, a agora famosa bactéria Halomonadaceae, estirpe "GFAJ-1", descrita no trabalho da Dra. Felisa Wolve-Simon da Astrobiologia da NASA. Bom, ainda não chegamos lá na nossa definição de vida (imagine uma lista de compras de supermercado). Os átomos detalhados acima não são suficientes, para manter um ser vivo, outros, como o Ferro (Fe) que forma a molécula da hemoglobina, tem papel fundamental no transporte de oxigênio em alguns animais, já outros possuem uma molécula semelhante, como os fotossintetizadores que possuem a clorofila mas outro átomo que faz esse papel, o magnésio (Mg), já alguns cefalópodes como os polvos e as lulas, possuem o Cobre (Cu) em molécula e papel semelhante.

Não é um trabalho fácil não é mesmo? por que ainda não paramos por aí, pois um organismo vivo troca, rouba e devolve energia para o meio ambiente, e também precisa nao somente se replicar (forma uma cópia de si) mas se reproduzir (formar uma cópia de si de forma "autônoma"), um dos motivos dos vírus não entrarem no escopo de seres vivos (pois eles utilizam o maquinário da célula invadida para tal). Esse sistema vivo ainda precisa mudar, sofrer mutações, ou adições e deleções e por fim evoluir.
Aqui estamos, talvez tenha conseguido descrever a forma de vida mais simples de todas, uma bactéria.

Mas e outras "vidas"? outros seres? Nós estamos aqui, mas onde estão todos os outros? isso se eles existem... No próximo post, vamos continuar em cima dessa questão. Então ainda dá tempo de preparar o café, limpar os óculos (se você os usar) por que é cedo para ir dormir, ainda mais que o próximo texto irei discorrer a respeito de vida feita de nuvens... Até lá.

Imagens: aqui, aqui e aqui


Eu sou de arsênico. Uma bactéria seduzida por um veneno, no lugar mais solitário do planeta

Ah... Bactérias. Organismos primordiais do nosso planeta. Ocupam praticamente todos os nichos da Biosfera, até mesmo vivemos em paz com elas (em nosso estômago) ou as vezes elas podem nos matar. Entidades simples, mas que "inventaram" as mais diversificadas e estranhas maneiras de sobreviver. Manipuladoras sexuais, sobreviventes a radiação alta, fazem nuvens, constroem colônias petrificadas em praias antigas, comem enxofre, e agora, em artigo publicado na revista Science, e divulgado em coletiva de imprensa as 17 hs (horário de Brasília) e 2 hs de Washington D.C, Estados Unidos pelo centro de Astrobiologia da NASA, podem utilizar o elemento Arsênico (As) em sua bioquímica, substituindo o Fósforo (P) como estrutura essencial na molécula de DNA, e possívelmente em outras biomoléculas.

O que pensávamos sobre a vida, ou sobre os elementos essenciais da "vida como ela é" era baseado nos "big six", ou seja, todas as formas de vida, de um grão de bactéria, de um cavalo marinho, uma bromélia solitária, e até a ruiva apetitosa Christina Hendricks, todos são formados de básicamente Carbono (C), Hidrogênio (H), Oxigênio (O), Nitrogênio (N), Fósforo (P) e enxofre (S). A arquitetura molecular desses organismos é estruturada por estes átomos em forma de biomoléculas, nas estruturas celulares, no ATP (trifosfato de adenosina) a "energia que dá força", e na molécula da vida, o DNA. Para o nosso interesse o fósforo desempenha a função de formar o "esqueleto" do DNA, na forma de fosfato (PO43-) ligando-se ao oxigênio e açúcares, constituindo a estrutura externa dessa molécula.

A pesquisa liderada pela Bioquímica Felisa Wolve-Simon do NASA Astrobiology Institute, demonstrou em seus experimentos com o organismo do Domínio Bacteria, filo das Proteobacteria, da família Halomonadaceae, estirpe "GFAJ-1", que é possível que esse organismo substitua o fosfato por arsenato (AsO43- ) em funções analógas ao DNA "padrão", formando o esqueleto do DNA, talvez ATA (Triarsenato de adenosina?) e também nas estruturas celulares que compoem essa estranha amante do arsênico.
O lago onde vivem estas bactérias chama-se "Mono", na califórnia E.U.A, sua paisagem alienígena dá asas a imaginação. É um ambiente hipersalínico e alcalino, sua temperatura fica em torno de -15 C° a 17 C°, a vida nesta faixa sofre uma redução em seu metabolismo (o que o arsênico pode desempenhar papel fundamental neste caso).

Quando fiquei sabendo ontem a noite sobre essa coletiva, esperava algo um pouco mais surpreendente (mas, que de fato é sim, para a biologia), mas imaginava um novo código genético, ou uma nova forma de vida terrestre, que foi batizada hipotéticamente como "Biosfera das Sombras" pelo Astronomo Paul Davies, que seriam formas de "vida", que evoluíram de forma independente no sentido de não compartilharem estes constituintes básicos, não sendo possível sua inclusão dentro das classificações que conhecemos. Bem, não foi isso que aconteceu. Tão pouco a descoberta de vida extraterrestre como muitos haviam pensado, já que o tema era Astrobiologia. O que provavelmente aconteceu neste estranho e "sedutor" evento evolutivo foi uma adaptação extrema para utilizar o elemento "As" invés de "P", como constituinte básico em sua biologia.

"I am arsenic, half dead and cold as a stone,
I'll burn your guts and crush your bone.
If I should venture, corruption would spread.
No one should approach the living dead!
I am a poison - a knife in your guts.
I need to be blameless, disguise my sin,
I need to have a hide for a skin!
I need to be tidy, need to be clean,
need to have my best efforts seen. "

Então, não encontramos E.Ts, nem uma nova forma de vida completamente disparate, mas um tipo tomado de estranheza à bioquímica convencional utilizada por todas os outros (até onde sabemos). No contexto cosmólogico, abre possibilidades de encontrar outros organismos em exoluas e exoplanetas, e até mesmo no nosso sistema solar, já que a vida, de certa forma ainda pode nos surpreender cada vez mais,e me surpreendeu. E quanto a você, querido leitor?

Prometo mais detalhes a seguir (e correções), preciso dormir agora e aproveitar que o meu velho computador me permitiu escrever este texto tarde da noite.

Referências:
Sience Magazine: "A Bacterium That Can Grow by Using Arsenic Instead of Phosphorus" DOI: 10.1126/science.1197258

Nature News: "Arsenic-eating microbe may redefine chemistry of life"
Poema: "I am arsenic" por Misha Norland
Mark Twain

Amanhã eu não sei...

Correr e permanecer no mesmo lugar (só que num diferente, sempre) ei? (mas se é o mesmo, como é diferente?) bem, isso é uma citação literária não precisa se preocupar ok?, um pouco de Rainha Vermelha, e a morte de Leigh Van Valen, que observou essa dinâmica entre parasitas e hospedeiros, o que pode ter dado origem ao Sexo...
Neste último mês comecei um novo espaço, dedicado a microtextos e imagens sobre genes, microscopia por tunelamento quântico, extinção, arte? que deriva do mundo natural, do real e imaginário (sim!!!! existe um mundo lá fora, de VERDADE) e através da observação, podemos construir conhecimentos para termos o poder de pensar, e agir sobre essas coisas todas. Eu vejo que tudo se trata de encontrar o seu lugar no mundo. Talvez tenha encontrado agora, amanhã eu não sei...
Então, o espaço está aberto com algumas imagens e textos (confesso que estou me divertindo muito) : "A mosca e o Jarro" . Apareçam, comentem, copiem e mandem fotos...

Para encerrar, seguindo o estilo do meu novo "Tumblr" um poema do Richard Feynman que eu gosto bastante.
Contemplo a sós o mar e penso ...
Vejo as ondas em agitado movimento ...
São montanhas de moléculas,
cada umas indiferente às outras ...
triliões as separam
formam, porém um uníssono a branca espuma.

Idades primervas sucessivas ...
´inda as ondas não eram por humanos olhos visíveis
ano após ano
ano após ano, tão estrondosamente
como agora, batiam nas praias.


para quem, para quê? ...
num planeta ainda sem vida,
um espectáculo sem espectadores.

Jamais em repouso ...
torturado era o mar pela energia
prodigiosa do Sol ...
desperdiçada sem trégua, derramada no espaço.
Uma migalha apenas faz bramir o mar.

Na profundidade dos oceanos, as moléculas
repetiam-se em padrões codificados
e repetindo-se, repetindo-se sem fim,
moléculas complexas formaram.
Novas e outras iguais a si ...
E uma dança original iniciaram.

Crescendo em tamanho, escolheram a via da
complexidade ...
Eis, por fim, a vida, multidões de átomos,
ADN, proteínas ...
Sempre, sempre embalando-se em estrutura complicada

Saídos já do berço-mar, agora
terrestres ...
átomos que ponderam,
matéria observadora.

À beira-mar ...
um Eu ...
Pergunta e pergunta-se:
um universo de átomos ...
um átomo-ilha no universo



As amantes dos cabelos das preguiças

Você olha para uma árvore. Lá em cima. Um animal com o olhar tristonho. Um tanto relutante, talvez. Você nota que seus pelos são esverdeados, quase misturando-se com os tons dos líquens que também vivem nestas mesmas árvores. Essa cor verde, confere um bom disfarce para o animal. Embora não seja um primata, lembra muito os membros da nossa familia, possívelmente pela convergência nos ambientes arbóreos. Tão bonito em seu silêncio. Pois, enfim você percebe que esta encantado por esse animal, uma preguiça.


Mas o encantamento não para por ai. Imagine que você está provido de um microscópio e resolve examinar minuciosamente estes cabelos, os seus pêlos esverdeados. daí você encontra milhares de outros organismos menores vivendo por ali. Claro, muitos piolhos, acáros e aranhas, mas também descobre que lá dentro, na superfície e também profundamente, vivem algas verdes! pequenos seres que "comem" as partículas do sol.



As algas da espécie Trichophilus welckeri, receberam este nome pois Trichophilus significa "amante dos pêlos" e foi descoberto que esta espécie existe somente em associação com o animal, numa simbiose mutualista, profunda e duradoura. Os pêlos absorvem água, e acabam tornando-se um local ideal para as algas, e a sobrevivência das algas de certa forma, contribuem na camuflagem da preguiça.
Agora só resta saber quem ama mais. A pequeníssima alga verde ou a esverdeada e sonolenta preguiça...


Nestes links é possível encontrar maiores informações sobre as evidencias moleculares, filogenia das algas e sobre a simbiose entre estes dois organismos:


SUUTARI. M. et al. Molecular evidence for a diverse green algal community growing in the hair of sloths and a specific association with Trichophilus welckeri (Chlorophyta, Ulvophyceae). BMC Evolutionary Biology.

http://www.helsinki.fi/research/news/2010/week15.html

Imagens:
http://cabinetmagazine.org/events/images/sloth
http://view3.picapp.com/pictures.photo/image/9606758/baby-sloth-fed-teresa/baby-sloth-fed-teresa.jpg


Saturno em Setembro

Nasce Setembro, e 31 anos atrás, a sonda Pioneer 11 foi passear próxima a Saturno... Tenho um pequeno caso de amor com os planetas gigantes, talvez por eles serem tão pesados e massivos, pelo cinturão de gelo que existe em alguns, e principalmente por suas incríveis luas...Mas o que é mais incrível que direcionar um objeto para as estrelas?
Antes da Pioneer 11, veio a Pioneer 10, aquela que carrega uma placa de ouro e nos descreve e diz aonde estamos a quem se interessar...

"Pioneer 10 will continue to coast silently as a ghost ship through deep space into interstellar space, heading generally for the red star Aldebaran, which forms the eye of the constellation Taurus (The Bull). Aldebaran is about 68 light years away. It will take Pioneer 10 more than 2 million years to reach it.
Its sister ship, Pioneer 11, ended its mission Sept. 30, 1995, when the last transmission from the spacecraft was received."

Daqui a 2 milhões de anos, Pionner 10 atinge a "constelação" de Touro, mais precisamente a estrela Aldebaran. Pionerr 11 cortou comunicações há 15 anos.

Longe de casa


"I know that the molecules

in my body are

traceable to phenomena in the cosmos.

That makes me want to grab people in the street and say,



‘have
you heard this?!’



-Neil deGrasse Tyson

Ciência que rouba

Li em algum lugar, talvez no blog do Mauro, que o melhor lugar para se fazer ciência não é sempre no laboratório, e sim muitas vezes em uma mesa de bar.

Alguns dias atrás, num boteco no centro antigo de Curitiba estava eu e meu grande amigo Químico, o Giorgio, conversando sobre o ensino de ciências, ambos já lecionamos, e obviamente já fomos (e ainda somos) estudantes. O tema principal foi a Eletrodinâmica e a Cromodinâmica Quântica, a Epigenética, metaloproteínas, ligações orgânometálicas, transposons e agentes quelantes. MINDFUCK!Mas isso foi só pano de fundo, a ciência, pois a grande questão em meio aos copos de cerveja e o frio estranho a mim, foi o porque dos métodos de lecionar ciência eram tão chatos quando estávamos na escola (e ainda é?), o que nos admira estarmos fazendo uma graduação em licenciatura em ciências e com objetivos de passar esse conhecimento para frente.
E pelas notícias do ministério da educação, falta professores de ciências, e os poucos com formação na área e já lecionam, tornam a matéria dura, enfadonha, e simplesmente chata!!!o que fazer na nossa humilde opinião? Introduzir exatamente estes assuntos complexos, que conversamos no bar, em tom de conversa, com o objetivo de "roubar "a atenção dos estudantes! certo que a primeira vista é paradoxal, ensinar por exemplo, a Relatividade, quando os alunos mal compreendem ou não gostam da física Newtoniana, mas a idéia é exatamente seduzir mesmo! através destes temas considerados "esotéricos", um roubo no sentido mais belo da palavra. Dai então ficaria mais suave a transição para outros temas mais "prosaicos", que são aqueles que a gente vê na escola, e claro no dia a dia.

E o mais precioso, o catalisador dessa sedução é o professor, ele que irá mostrar como é esse método especial de descobrir as coisas, que é a ciência. Que nada tira da beleza do mundo, mas só adiciona. Abrir as janelas da mente... Parece utópico eu sei, mas das vezes que toquei em assuntos complexos em aulas, os olhos da gurizada brilhavam, com esse mundo novo, grande e assombroso que se descortina quando estudamos a natureza das coisas através da ciência.
Tem o efeito Mpemba, descoberto por um estudante secundário africano, e que consiste no fato da água morna congelar mais rápido do que agua fria! muitas pessoas duvidam desse fato, mas então faça o seguinte, peça para a pessoa, ou seu aluno ir para casa e tentar reproduzir esse fenômeno, anotar os resultados e comparar com a teoria, agora sim, isso é ciência, e isso que a distingue de outros saberes, é um saber que te dá a possibilidade de confirmação e refutação pessoal de certas teorias.

J. Robert Oppenheimer

Então, dessa forma poderemos começar a falar de uma real educação científica. Que não pode se limitar a transmissão de dados, decoreba, e passar em provas... Certo, ainda há muitos "Muros" para impedir essas ações, essas conversas, mas comece em sua casa, em seu bar favorito, na sua sala de aula, daí sim alguma coisa importante poderá surgir disso.

O termo ciência que rouba foi um problema meu de tradução do espanhol, de uma série sobre ciências "Ciencia que ladra". Mas eu gostei!

Imagem: aqui.

Extinção e esquecimento


"Todos os meus amigos estão mortos...
Assim como os Brontossauros (apatossauros)
.
A maioria dos meus amigos estão mortos...
Assim como o Dodô.
Todos os meus amigos expiraram na terça...

Assim como o leite."

Livro de Avery Monsen e Jory John, minha próxima aquisição aqui... Existe um poema lindo de John Griffin: Extinction, leiam...

Beleza Marciana

Falar sobre a beleza. E eu entendo disso? não sou uma pessoa bonita, e talvez por isso (mas não somente) me interesso por demais sobre essa palavra inventada para descrever algo grandioso, ou pequeníssimo, desconhecido, fulgurante, que remove o ar dos pulmões, que aumenta os batimentos de um coração velho que surgiu provavelmente em "peixes" ou vermes ancestrais... Então, alguém inventa palavras curtas. bonito, beleza, belo e boniteza para descrever essa sensação, por lógica no pensamento.
Já ouvi artistas, poetas e filósofos dizerem que a ciência remove a beleza das coisas. Marte era o Deus Romano da guerra, da força e onipotência, um conquistador.

Os mitos antigos descreviam-o assim, e a Astrologia, um sistema antigo de idéias que sustenta que os movimentos aparentes dos astros influenciam, e nos guiam aqui na terra, milhões de quilômetros e anos de distancia das estrelas, e das imaginárias constelações., mas não somente do destino e nascimento das pessoas, mas sim até de empresas!!! Mas o que sabemos de fato sobre Marte? É um planeta frio, com uma frágil atmosfera, com geografias suspeitas por serem formadas por rios, lagos e oceanos alienígenas, a pelo menos 2 bilhões de anos atrás. Lá existe o maior canion do sistema solar, Valles Marineris ( o vale do marinheiro, com 3.000 km de comp. e 8 km de profund.) e a descomunal montanha (um vulcão na verdade) conhecido como Olympus Mons (monte olimpo, 27 km de altura).

Também há gelo nas calotas polares, formado por dióxido de carbono, e recentes evidências de água (tive uma felicidade imensa em saber, que precisava comemorar com uma pessoa que mantém diálogos com montanhas agora, lindos e cheios de gagueiras)...
Mas daí surge a pergunta, a ciência, que é um meio de descobrir as coisas, um método especial e muito cuidadoso de conhecer e descrever a sutileza do Cosmos, retira a beleza de Marte? Não, meus caros, só adiciona...

O sonhos de um dia ver o por do sol rosado daquele mundo estranho, suas areias tão antigas quanto nós, e imagine a primeira pegada humana nessa areia fria? não posso, e não consigo pensar que isso não é lindo. E que é belo saber isso.
Mas não precisa ter toda essa explicação minuciosa, cartográfica, psicológica, química para ser bonito.
Descartes estudou os arco-íris, por causa do fenômeno da luz atravessando confusa por partículas de água e poeira na atmosfera? ou será que era por que ele os achava terrivelmente belos? Pense nisso...

(Post de despedida de uns dias, e fortemente inspirado nas palavras do "Dick" Feynman)

Referências e Imagens: Porto do céu. Ny Daily News. Nasa. PopSci. Wikipedia. Física.cab.cnea.gov.ar

Conversar com as moscas


"Sabía perfectamente, que los humanos resultan demasiado jactansiosos, que jamás descenderían a conversar com las moscas, a aceptar um terreno neutro em que dialogar de igual a igual, donde pudiera producirse uma desablé transacción de memorya e secretos."


(Luiz Manuel Ruiz, Él critério de las moscas, Madrid, Suma de Letras, 1998)


Mas penso muito diferente, e carrego as palavras abaixo comigo...

"É muito bom estar entre os que conversam com as moscas e com elas trocam memórias, segredos e assim, descobrem coisas sobre a vida..."

(Prof. Dr. Elgion Loreto da Silva -UFSM)

Imagem: Pop-Ology

A função da natureza

Série de imagens por Nikki Graziano, fotógrafa e matemática, demonstrando as funções nas sombras, arbustos, nuvens e montanhas de areia e gelo.
A estrutura do universo é matemática pura, linda e compreensível. Mas nos deixa com cara de bobo, e não adianta se perguntar "por que é assim?". É, somente.

Vou construir um cérebro!


Quando um louco sonha com o maquinário do Universo

Conhecer a si mesmo. Em que sentido? o que há para ser conhecido? sinceramente, não entendo muito quando alguem diz que é preciso se conhecer. Alguns vão para análise, outros fecham-se em suas conchas nautilóides e iniciam um processo qualquer para se entender. Outros vão para uma mesa de bar ou café e ficam olhando as pessoas, a fumaça se misturando as nuvens e ouvindo o barulho do açucar e dos saquinhos de chá sendo deitados em água quente. E outros ainda deixam de lado essa busca...
Tenho pensado muito, demais, sobre a loucura, sanidade, a morte, vida, e certos processos que surgiram tardiamente na história biológica, como o sexo e o amor. Um bom livro que me acompanhou foi "Um louco sonha a máquina Universal" sobre as histórias de Kurt Gödel e Alan Turing, dois gênios matemáticos e com vidas destroçadas pela realidade.
"Essas duas pessoas convergem na história e divergem nas crenças...Ambas estão inebriadas de matemática. Mas, apesar de toda a devoção delas, a matemática é indiferente, inalterável por qualquer de seus dramas...Um mais um sempre será dois. Suas vidas dilaceradas são meros episódios à margem de suas descobertas."

Como tenho passado um tempo generoso sozinho, tenho conversado comigo mesmo, nao só durante ao dias, mas principalemente em sonhos (mas nao é com nós mesmos que falamos dormindo?) e algumas semanas atrás, antes de apresentar meu projeto, relutante de certa forma, e decido a nao trazer a público meus esforços, sonhei um dialógo com um dos professores que iriam compor a mesa, um professor de microbiologia formado numa Universidade importante da França, e ele dizia algo do tipo "Tu tens de provar para mim que tua hipótese está correta" ou utilizava de inversões do ônus da prova, já que ele dizia que ela estava errada e que ele não teria que me apontar os erros, enfim uma bagunça. E chega o dia da apresentação, e ao terminar de expor meus métodos e resultados, o mesmo professor que eu tinha sonhado me diz algo como: "Bom, o que é que vou te perguntar..." com isso levantando um riso alto das pessoas que estavam assistindo a mostra de iniciação científica.
Conheço muita gente que anseia pela loucura, como se fosse uma coisa terrivelmente boa. Não sei, só conheço a minha loucura, que é decorrente de uma doença ancestral ampliada pelo ambiente, e que me agarro enquanto posso, enquanto ela me guia para máquinas cada vez mais complexas, indecifráveis e estranhamente sedutoras.
Então o amor, as conchas de argonautas, as proteínas bacterianas incrustadas nos genomas de vermes e as equações da loucura nos conduzem até o final da vida. que espero que seja breve mas com essas coisas novamente, tudo de novo até gastar e cansar.

Imagem: aqui
Referências: Levin, Janna. "Um louco sonha a máquina universal" São Paulo, Companhia das Letras, 2009.


Vida a partir de vida

Craig Venter conseguiu. Sintetizou em laboratório um genoma inteiro de uma bactéria e o inseriu numa célula vazia de outra espécie de bactéria. O genoma começou a "funcionar" normalmente na célula. Os dois estão muito bem, obrigado. Agora os dois são um. Bem vindo ao mundo, Mycoplasma mycoides JCVI-syn1.0.
Foi a notícia mais comentada da semana, e é com certeza, uma das aquisições mais impressionantes da história e dos esforços da biologia e da ciência. Suas implicações são enormes, na biologia, na ética, religião e para a sociedade como um todo. Mas o que Craig Venter e sua equipe (lógico que ele não o fez sozinho) fizeram? vida no laboratório? Bem, não exatamente.

Não, por que eles não criaram vida do zero, eles utilizaram nucleotídios, aquelas bases nitrogenadas, as letrinhas químicas C, T,G e A e o organizaram uma a uma para "imitar" o menor genoma conhecido, o da bactéria Mycoplasma mycoides, deletando algumas partes do genoma, e adicionando "marcas d' agua" moleculares, para ajudar a distinguir um organismo com genoma sintético de um que não conseguisse "funcionar" como esse genoma. As palavras do grande escritor James Joyce, “To live, to err, to fall, to triumph, to recreate life out of life.” estão inscritas nesse genoma sintético, numa região não codificadora (que nao é traduzida em proteínas), o que ele pensaria a respeito? Suas palavras realmente escritas no "corpo" de um ser vivo! E o que melhor define de forma precisa esse esforço científico foi exatamente o que as palavras de Joyce queriam dizer, criar vida a partir de vida...Então o genoma sintético de Mycoplasma mycoides foi transplantado para uma célula de uma bactéria do mesmo gênero mas de outra espécie, a M. capricolum.
O Presidente estadunidense Barack Obama convocou seus conselheiros de bioética e biossegurança a discutirem a respeito da importância, aplicações e riscos dessas pesquisas.
O Vaticano já comentou sua opinião a respeito. Uma parte emitiu o velho bordão, que os cientistas querem ser Deus, e só Ele pode fazer vida, mas oficialmente declaram ser uma pesquisa importante e interessante, com aplicações sérias em medicina e energia.
Penso que esse fato, é de um peso enorme. São elementos químicos somente, assumindo de forma programada funções celulares, do incrível maquinário da vida. Algo que biólogos, químicos e físicos suspeitam a muita tempo. Mas será que nós estamos preparados para isto?

Nos blogs Ciência na mídia e no RNAm poderá encontrar mais informações importantes a respeito.
Artigo original da pesquisa: "Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically SynthesizedGenome".
Imagem: Daqui.


Funeral Blues

Daí que ontem estava com vontade de ler algum livro. Escolhi da minha estante de madeira antiga o "Werther", do Goethe. A primeira vez que o li tinha 15, 16 anos. A segunda já tinha uns 19 e a última, bem...
A história, já bem conhecida é sobre um jovem apaixonado pela vida e a natureza, O Werther que mais tarde conhece uma jovem, Carlota e se apaixona pela moça. Mas ela já esta comprometida, e mesmo assim o pobre jovem vive dias lindos de esperança e tudo que vem junto com esta. Até que percebe que nada pode fazer. Sabe aquela sensação de impotência? que nada do que a gente disse ou demonstrar adianta? então... O livro termina com o seu suicídio.
Comecei ontem a noite e o terminei ontem mesmo, nao tenho a mínima idéia da hora (de madrugada não gosto de saber que horas são, talvez por saber que outro cansativo dia já se aproxima).
Um filme muito bom que vi esses tempos foi o ultimo do Woody Allen, sobre um físico cheio de manias, que conhece uma garota, muitos anos mais nova e aprende a gostar dela aos poucos... Mas, como nada dura, um dia ela chega perto dele e diz que esta apaixonada por outro. Ele diz algo como: "Eu entendo, entendo perfeitamente. Minha querida, consigo entender a mecânica quântica...". Ele tenta o suicídio duas vezes.

Geralmente, as mulheres quando cometem o suicídio, o fazem cortando os pulsos (uma maneira bagunçada, mas muito poética, onde o ideal e cortar no sentido das artérias) ou tomando calmantes misturados a uma bebida doce... Os homens são mais brutos e barulhentos, usam do fogo das armas, desfigurando o seu rosto.
Penso que existem coisas muito legais lá fora. Que é incrível viver nessa época, onde estamos visitando de verdade outros planetas e luas. Que estamos no início de um estudo profundo sobre as bases do fênomeno Vida. Que existem bilhões de pessoas aí fora, no meu bairro e cidade...
Muito triste deixar tudo isto para trás...
Acho que quando entendemos a fundo alguma coisa qualquer, desde a vida sexual de termites na Tazmania ou a nucleossíntese de elementos pesados nas estrelas, a mísera compreensão de um micromundo, reflete o que acontece no macro. Daí a crueza dos dias e a dureza das horas tocam mais fundo num loop contínuo uma canção um tanto sombria...

No enterro ao final do filme "Quatro casamentos e um funeral" um personagem lê o poema de W. H. Auden, "Funeral Blues". Aqui traduzido por Nelson Ascher.

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto

viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —

guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Obs: se conhece algum amigo especial que esteja pensando nisto, faça o possível para o fazer mudar de idéia.

As cores de uma sombra

Reproduzindo o chamado publicado no Coletivo ácido acético, sobre a paletra "Belas aplicações da Teoria das Cores de Young-Helmholtz: As sombras coloridas e as cores da Lua cheia" a ser realizada dia 18 de maio (terça-feira), às 19h, na Sala Multimeios do Planetário, ministrada pelo Prof. Fernando Lang da Silveira, do Instituto de Física da UFRGS, com entrada franca:

Resumo: A Teoria das Cores de Young-Helmholtz remonta ao início do século XIX e está concretizada, por exemplo, na tela dos nossos televisores e computadores. O preconceito de que as sombras não têm cores é revelado falso quando observamos o interessante efeito das sombras coloridas. Essa é apenas uma das aplicações de um conhecimento cujos fundamentos já possui mais de 200 anos.


Vide uma apresentação sobre as sombras coloridas aqui.

Veja a nota original aqui.

Imagem: as cores da sombra durante um oficina sobre a biofísica da visão e evolução do Olho que ministrei com colegas na Unisinos, ano passado.

A mosca e o Jarro

Encerro meus experimentos no "Jarro de moscas". Não eram poemas e tão pouco poesia... Está na hora das larvas virarem moscas. Acho que era isso, um monte de larvas em forma de palavras, seladas e alimentadas nas horas certas.
Se quiserem conhecer ou se despedir fiquem a vontade. Talvez hoje ou amanhã abrirei a tampa do pote...

Obrigado a todos que leram, comentaram e sentiram alguma coisa, mesmo que seja repulsa ao ler uma hibridização frustrada talvez, de ciência e poesia.
E por último, um suspiro final disso que nao foi uma coisa nem outra, e sim algo no meio e diferente:

O Drosophilista:

"Querida e doce inflamação
escureça um pouco mais o meu pulmão
arranque os pedaços mais vermelhos
transforme minha carne em seu espelho
a sua tinta absorveu-me como papel
vou contar as moscas percorrendo o céu
e só tenho isso a te dizer
te adorei em nível atômico, molecular
um cadeado te prendeu num rio
e só com ele você soube amar...
E no fim, não merece nem um pouco de minha atenção

nem da quarta cavidade do meu coração."

Sobre a mecânica de dois ungulados

Quando alguém discorre a respeito de um assunto que não domina, corre o risco de ser superficial, simplório e equivocado. Sempre gostei de arte, antes mesmo de pensar nas coisas do universo natural (bem, o que fica de fora?) mas não sei definir se algo é arte ou não, e talvez mesmo os artistas não se preocupam com isto, em ter essa definição, mas não saberia dizer...O que posso dizer é que certas obras me agradam mais que outras, estéticamente. E se um artista diz que isto ou aquilo é arte, assim é. Perceba minha insegurança a falar a respeito...

Meu campo é a ciência. Estou familiarizado com seus métodos e linguagens, assim consigo definir de uma forma satisfatória se um assunto é científico ou não. E o fato de ser científico ou não ser, nao torna algo menos verdadeiro, importante ou interessante. Acho que consigo conviver com isto, com essa incerteza e imprecisão de algumas coisas, mesmo elas tendo sentido ou não...
Incríveis as esculturas do artista Sayaka Kajita Ganz que utilizou materiais reciclados para a confecção dos ungulados que decidi compartilhar aqui no meu espaço...

Via: Chris Tyrell's Blog

Do fundo do oceano para o sushi, e do sushi para o fundo do estômago

ResearchBlogging.org
Para se apreciar um bom sushi como manda o figurino é preciso dominar a técnica dos "pauzinhos" hashis, o que o povo Japonês, os mestres zen da arte de fazer e saborear este tipo de comida, domina com maestria. O tipo mais simples é o de arroz enrolado com algas "nori", geralmente da espécie Porphyra sp., e também para preparar este prato existem certas técnicas especiais...

Mas eu gostaria de lhes apresentar uma nova técnica milenar e molecular descoberta recentemente, que os japoneses possuem para comer (na verdade digerir) o sushi: São genes de bactérias, que somente existem no microbioma (nome técnico do nicho bacteriano do estômago) desta população. Estes genes codificam enzimas capazes de quebrar os carboidratos complexos da alga nori, para serem assimilados e utilizados no metabolismo humano. A responsável por isto é a Bacteroides plebeius que desempenha esta valorosa função, mas o detalhe é que estes genes estão ausentes em bactérias terrestres, e somente são encontrados em espécies que vivem no fundo mar!

Bacteroides hypermegas

Como essas prosaicas trabalhadoras estomacais adquiriram tal refinada ferramenta molecular? de acordo com a hipótese de Jan-Hendrik Hehemann e colaboradores que realizaram a análise metagenômica destes dados, foi através da boa, velha e já conhecida por leitores deste blog, Transferência horizontal gênica... A dona original deste arcabouço genético é a bactéria marinha, Zobellia galactanivorans, que vive em associação com algas, principalmente "nori".
Acompanhe novamente comigo: os genes da bactéria marinha das algas, que são enroladas para fazer sushi, e compõe a dieta diária no Japão, vão parar dentro do estômago e são "engolfados " no genoma de bactérias que lá vivem e auxiliam na digestão das mesmas algas que carregaram os genes para estas bactérias... Depois desse conto gastronômico e evolutivo, não deu uma vontade de comer sushi?

Eu sei que vocês preferem assim, seus malandros...

Para ler mais detalhes: Not exactly rocket science, Wired
Imagens: aqui, aqui e daqui.

Esta postagem é parte do #PremioBeNeviani e encerra a série especial patrocinada pelos amigos de Wigner sobre o fenômeno da Transferência Horizontal Gênica.

Referência: Hehemann JH, Correc G, Barbeyron T, Helbert W, Czjzek M, & Michel G (2010). Transfer of carbohydrate-active enzymes from marine bacteria to Japanese gut microbiota. Nature, 464 (7290), 908-12 PMID: 20376150

Prêmio Bê Neviani - Porque não basta divulgar, tem que dispersar!

Depois do recente anúncio feito pela vetusta Biblioteca do Congresso (Library of Congress), comunicando que arquivará todas as mensagens públicas postadas no Twitter desde o início do serviço de microblog, não restam dúvidas de que esta mídia social veio para ficar.
Segundo os cofundadores Bizz Stone e Evan Williams, hoje o Twitter tem 105 milhões de usuários registrados, e 300 mil novos usuários ingressam no serviço a cada dia. Seu crescimento médio foi de 1.500% por ano, desde a fundação da "Twitter Inc" em março de 2006. O serviço atende a 19 bilhões de buscas por mês. Apenas comparando, o Google atende a 90 bilhões no mesmo período.
Não se pode negar - o Twitter é uma ferramenta 2.0 por excelência: seu conteúdo é gerado e compartilhado pelos próprios usuários. A dinâmica do microblog funda-se primordialmente na atuação dos tuiteiros, que seguindo e sendo seguidos, dispersam conteúdos virtuais.
A ação de tuiteiros que dispersam conteúdos relevantes no universo tuitiano merece destaque e deve ser aplaudida. Foi essa premissa que inspirou a criação do Prêmio Bê Neviani, reconhecendo a incrível capacidade de dispersão de tuítes com conteúdo diversificado, como cultura, ciência, tecnologia, notícias e muito mais, do perfil @Be_neviani.

Nunca houve uma tuiteira como @Be_neviani

Hoje, dia 22 de abril de 2010, estamos lançando o
Prêmio Bê Neviani: porque não basta divulgar, tem que dispersar

Regulamento:

- O Prêmio Bê Neviani é aberto a todos os tuiteiros que tenham blogues de conteúdo informativo: ciências, cultura (literatura, cinema, artes, fotografia, música, etc), filosofia, notícias, dicas e assemelhados.

- Os blogues participantes da campanha tuitarão, no período de 23 de abril de 2010 a 23 de maio de 2010 links para seus posts, publicados em qualquer data e com qualquer temática, obrigatoriamente usando a hashtag #PremioBeNeviani e o encurtador de links Bit.ly.

- No período de vigência da campanha, os retuítes (RTs) que os links desses posts receberem serão computados para a apuração de dois ganhadores, um em cada uma das duas seguintes categorias:

Categoria 1: blogueiros – o vencedor será o blogueiro cujo post recebeu mais RTs. O prêmio dessa categoria será o livro “Criação Imperfeita”, de Marcelo Gleiser.

Categoria 2: tuiteiros – o vencedor será o tuiteiro que deu RTs em qualquer dos tuítes postados durante a vigência da campanha. Essa categoria terá sua apuração por sorteio. O prêmio para essa categoria será o livro “Além de Darwin”, de Reinaldo José Lopes.

O anúncio do prêmio será em 30 de maio de 2010, pelo Twitter.

Para participar, envie um tuíte para as administradoras @sibelefausto ou @dra_luluzita, ou então comente aqui, que entraremos em contato.

Abaixo, segue a relação dos blogues e tuiteiros participantes. À medida que mais blogueiros aderirem a essa campanha, essa listagem será atualizada.

Blog - Blogueiro-tuiteiro

100nexos @kenmori

Amiga Jane @lacybarca

Blog Bastos @bastoslab

CeticismoAberto @kenmori

Chapéu, Chicote e Carbono 14 @reinaldojlopes

Ciência na Mídia @ciencianamidia

Discutindo Ecologia @brenoalves e @luizbento

Dicas Caseiras para quem mora só @uoleo

Ecce Medicus @Karl_Ecce_Med

Efeito Azaron @efeitoazaron

Ideias de Fora @IdeiasdeFora

Joey Salgado... mas bem temperado @joeysalgado

Karapanã @alesscar

Maquiagem Baratinha @aninhaarantes

Meio de Cultura @samir_elian

Minha Literatura Agora @jamespenido

O Amigo de Wigner @LFelipeB

O divã de Einsten @aninhaarantes

O que todo mundo quer @desireelaa

Química Viva @quiprona

Quiprona @quiprona

Rabiscos @skrol

Tage des Glücks @nataliadorr

Tateando Amarras @eltonvalente

Terreno Baldio @lacybarca

Twiterrorismo @aninhaarantes

Uma Malla pelo Mundo @luciamalla

Uôleo @uoleo

Bala Mágica @balamagica

Ciência ao Natural @CienAoNatural

Diário de um Gordo @Edgard_

Psiquiatria e Sociedade @danielmbarros

The Strange Loop @josegallucci

Toda Cultura à Nossa Volta @fabiocequinel

Tuka Scaletti @TukaScaletti

XisXis @isisrnd

Imagem: Roubei do Joey

Parasitismo de palavras

Ando meio desligado dos meus blogs, twitter e todo o resto por uma boa causa, estou trabalhando num projeto a ser apresentado na semana científica da minha universidade, então por ora nada de atualizações, desculpe pessoal...
Mesmo assim, uma leitura aqui e ali encontrei por acaso este blog o "Whateaver", via "Ocioso" este blog que descaradamente plagiou (kibada) meu texto sobre a Elysia chlorotica, a lesma fotossintetizante. O "manolo" não se deu ao trabalho nem de mudar uma palavra ou outra, nem mesmo a foto... Enfim, não me admira que outros blogs reconheçam seus textos por lá. Não custa nada colar uma referência não é? cuidando com o parasitismo na blogosfera meus amigos...


Imagem: Mosca parasitando uma formiga. National Geographic

A origem do código genético via transferência horizontal?

ResearchBlogging.org
O que é vida? vida é bactéria. Elas já estavam aqui, permaneceram, vão continuar até o Sol evaporar os últimos aceanos do nosso planeta e, aposto uma grana alta que até depois dessas transformações holocausticas que o mundo como o conhecemos irá atravessar, elas ainda vão estar dando as caras.
No mesmo momento que Neil Armstrong pisou na Lua, possíveis bactérias "pisaram" também: A famosa frase poderia ser pervertida da seguinte forma" É um pequeno passo para o homem , mas um grande salto para a Bactéria".
No artigo “Collective evolution and the genetic code” da revista PNAS, em 2006, o físico e microbiologista Carl Woese, que ficou conhecido por defender uma nova classificação dos organismos vivos em três domínios, Archaea, Bacteria e Eukarya em 1977, utilizando técnicas da bioquímica, cunhou o termo "Evolução coletiva" para introduzir uma teoria dinâmica sobre a evolução do código genético através de mecanismos não-darwinianos, que poderiam ter ocorrido no alvorecer da vida.

O interessante que Woese e seus colaboradores não apontam um organismo único ancestral e sim uma comunidade hipotética de organismos que trocariam material genético de forma promíscua, posteriormente sendo refinados pela Seleção Darwiniana e dando origem ao código genético universal, e consequentemente ao ultimo ancestral comum a todas as espécies.

Talvez os mecanismos que "impeçam" a troca promíscua de genes não existia (na verdade até hoje é alta a permutação entre as bactérias e arquéias), por isso das poucas evidencias em eucariotos, mas se você esta acompanhando esta série de postagens aqui no seu amigo de Wigner que já esta próxima do fim, sabe que mudanças estão ocorrendo e elas não param por ai...

Nos vemos no próximo capitulo, e não esqueçam de seguirem-me os bons no twitter.

Imagem: Nature

Referências:

http://scienceblogs.com.br/discutindoecologia/2008/10/i-carnaval-cientifico-o-terceiro-dominio-da-vida.php

MARGULIS, Lynn e SAGAN, Dorion (2002). O que é vida?. Ed. Jorge Zahar.

Vetsigian, K. (2006). Collective evolution and the genetic code Proceedings of the National Academy of Sciences, 103 (28), 10696-10701 DOI: 10.1073/pnas.0603780103



A serpente interior

Você espera normalmente encontrar um pedaço de mamífero, um roedor, algum cervo e até mesmo uma vaca dentro de uma serpente, mas achar um pedaço de uma serpente dentro de uma vaca, isso é algo que você nunca esperaria encontrar! Mas foi exatamente isso que aconteceu ao longo da evolução, só que os pedaços que estamos falando pertencem aos genes de uma familia de víboras, a Viperidae que de alguma forma foram parar dentro do genoma não somente das vacas, mas de todos os mamíferos da ordem dos Ruminantia, que inclui, vacas, cervos, bodes, girafas entre outros.


Em 1997, Dusan Kordis e Franc Gubensek em pesquisas com o gene Ammodytin L que é expresso nas glândulas de veneno da serpente Vipera ammodytes, encontraram o retrotransposon ( sequências de genes que se autocopiam via transcriptase reversa para RNA e depois para DNA se integrando no genoma do hospedeiro), ART-2 que era especifico de ruminantes, denominado de Bov-B LINE numa das regiões do intron desse gene. E ai que vem a pergunta, como esse retrotransposon foi parar lá? ou será que originalmente o gene pertencia às serpentes? ou todos os vertebrados possuem esse gene?
A resposta veio após a análise filogenética da distribuição desse elemento, realizada na época, que mostrou claramente que além dos Ruminantia, ele estava presente somente na família Viperidae de serpentes, o que podia indicar mais um caso de transferência horizontal , devido a descontinuidade na história desse gene e das distâncias genéticas desses dois grupos, e isso aconteceu em um a escala de tempo aproximadamente recente, em torno de 5 milhões de anos. Mas em artigo de 1998, os mesmos pesquisadores estenderam sua busca em diversos vertebrados, invertebrados e em algumas espécies de plantas, para confirmar se realmente houve o fenômeno da transmissão horizontal, e se somente estes dois grupos de vertebrados possuíam o BOV-B LINE e chegaram ao consenso que o elemento residia no intímo do material genético que compõe a ordem Squamata (= escamados, serpentes, lagartos e anfisbenias) e a amplificação do Bov-B LINE provavelmente ocorreu durante a era Mesozóica ≈140–210 milhões de anos, no ancestral desse grupo, confirmando a possibilidade da transmissão para o ancestral dos Ruminantia há aproximadamente 50 milhões de anos atrás, durante o Eoceno, e mantida na linhagem por transferência vertical.
A estranheza destas descobertas, que fazem parte do papel desse fenômeno na evolução, é real, eu e você compartilhamos isso, mas o montante de evidências a favor dessa visão da história das espécies cada vez ganha mais corpo. É o que descobriremos nas últimas postagens dessa grande história evolucionária, da promiscuidade molecular entre as espécies. Então, sigam-me os bons...

Referências:

Kordis, D., & Gubensek, F. (1997). Bov-B Long Interspersed Repeated DNA (LINE) Sequences are Present in Vipera Ammodytes Phospholipase A2 Genes and in Genomes of Viperidae Snakes European Journal of Biochemistry, 246 (3), 772-779 DOI: 10.1111/j.1432-1033.1997.00772.x

Kordis, D. (1998). Unusual horizontal transfer of a long interspersed nuclear element between distant vertebrate classes Proceedings of the National Academy of Sciences, 95 (18), 10704-10709 DOI: 10.1073/pnas.95.18.10704


Imagem: daqui

Navegar é preciso: A rima do elemento Mariner

No ano de 1986, a equipe liderada por J.W Jacobson, isolou um novo elemento transponível , o Mariner, retirado de um mutante de Drosophila mauritiana de olhos brancos, cujo a mutação foi denominada de peach (pêssego). O elemento recebeu esse nome em referência ao antigo poema "The Rime of the Ancient Mariner" do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, que fala sobre um velho marinheiro que se perde em suas navegações e que passa por eventos sobrenaturais.
Esse elemento transponível é provavelmente o mais difundido entre os seres vivos, sendo encontrado na maioria dos insetos, crustáceos, aracnídeos e até mesmo no genoma humano, onde é possível encontrar o Hsmar1 fusionado a uma proteína, e em torno de ~1000 cópias do Hsmar2
( Homo sapiens mariner 2), localizado no cromossomo 17. Pesquisas recentes apontam para uma relação com doenças humanas como a Charcot-Marie-Tooth.

A transferência horizontal desse elemento possui fortes evidências de ter ocorrido em diversas espécies, como entre a mosca de chifres Hematobia irritans e o mosquito Anopheles gambiae, que divergiram evolutivamente a 200 milhões de anos atrás e que possuem 90% de identidade similar do elemento. Uma possível transferência horizontal de mariner também foi identificada entre a vespa parasitóide Ascogaster reticulatus e sua larva hospedeira, a Adoxophyes honmai, contendo similarididade de 97.6% e não sendo identificado em espécies próximas a esses grupos.


Um acontecimento importante na nossa evolução, dos primatas, foi a possível fusão entre a histona metiltransferase SET com uma enzima (transposase) de um elemento mariner o Hsmar1, que deu origem a um gene quimérico do grupo dos primatas, o SETMAR, num evento que deve ter ocorrido há 40–58 milhões de anos atrás.
Esses elementos também foram encontrados em planárias, nas hydras e em morcegos, o que torna o transposon Mariner um dos melhores navegadores do "oceano genético" que circunda a todos nós.

Referências:

Cordaux, R., S. Udit, M. A. Batzer, and C. Feschotte. 2006. Birth of a chimeric primate gene by capture of the transposase gene from a mobile element. Proc. Natl. Acad. Sci. USA 103:8101-8106

Mikio Yoshiyama, Zhijian Tu, Youichi Kainoh, Hiroshi Honda, Toshio Shono, and Kiyoshi Kimura: Possible Horizontal Transfer of a Transposable Element from Host to Parasitoid Mol Biol Evol 2001 18: 1952-1958

Liehr, Thomas: Localization of mariner DNA Transposons in the Human Genome by PRINS Genome Res. September 1, 1999 9: 839-843; doi:10.1101/gr.9.9.839

Imagens: Gustave Doré Art Prints . Uma curiosidade sobre Gustave Doré é que ele ilustrou a divina comédia de Dante e o Paradise Lost de John Milton.

Eu, primata, e meu elemento Alu

Em 1979 no artigo “A ubiquitous family of repeated DNA sequences in the human genome” foram identificadas diversas seqüências repetitivas de retrotransposons classificados como SINE’s (pequenas sequências de DNA menores que 500 pares de base) que continham um local de reconhecimento para a enzima de restrição Alul, e por isso receberam o nome de elementos Alu. São seqüências genéticas encontradas somente nos primatas e o genoma humano possui um numero grande dessas seqüências, em torno de ~500,000 cópias. Após a “leitura” do genoma humano utilizando técnicas modernas, foi estimado que existam próximo a um milhão de copias do elemento Alu, comprimindo 10 % do genoma total humano.

A origem do Alu reside nos últimos 65 milhões de anos, após a radiação dos mamíferos e posteriormente os primatas, e teve sua origem no grupo dos Supraprimatas. A maioria dos elementos Alu se duplicaram a mais de 40 milhões de anos atrás e durante a ascensão dos primatas é estimado que uma duplicação do elemento tenha ocorrido a cada nascimento de primata. Em contraste a atual taxa de amplificação do elemento é em torno de uma nova inserção a cada 200 nascimentos.

A diversidade criada por uma nova inserção pode ter impacto positivo no genoma, como numa alteração vantajosa na expressão de uma proteína, mas geralmente possui efeitos desvantajosos, sendo indicado uma ligação entre a incidência de câncer de colon em humanos. Devido ao grande número de Alu’s no genoma dos primatas e consequentemente no genoma humano, e por sua existência ser restrita somente a esse grupo, possivelmente esses elementos desempenharam um importante papel na evolução dos primatas.

Referências:

A ubiquitous family of repeated DNA sequences in the human genome. J Mol Biol. 1979 Aug 15;132(3):289–306

Nyström-Lahti M, Kristo P, Nicolaides NC, et al. (November 1995). "Founding mutations and Alu-mediated recombination in hereditary colon cancer". Nat. Med. 1 (11): 1203–6

Bolzer A, Kreth G, Solovei I, Koehler D, Saracoglu K, et al. (2005) Three-Dimensional Maps of All Chromosomes in Human Male Fibroblast Nuclei and Prometaphase Rosettes. PLoS Biol 3(5)

http://www.nature.com/scitable/topicpage/Functions-and-Utility-of-Alu-Jumping-Genes-561

Batzer, M. A. and P. L. Deininger (2002) Alu repeats and human genomic diversity. Nature Reviews Genetics 3: 370-379

Imagem: Cariótipo de linfócito de uma femêa humana (XX, 46 cromossomos,). Os cromossomos foram hibridizados com uma sonda para sequeências de Alu (verde).

Jill Greenberg: The Manipulator