O Guia do Mochileiro dos Genomas

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Solidão. Ou é momentânea, ou ilusória. Nunca estamos sozinhos. Dentro de nós existem mais bactérias que gotas da água num dia chuvoso de verão. Algumas nos acompanham do nascimento até o funeral, outras vamos adquirindo através da comida, da respiração e do toque de outra pele... Para o bem e para o mal, convivemos com elas. Algumas são organismos caroneiros, no melhor estilo "On the Road" do escritor Beat, Jack Kerouac. E talvez, a mochileira oficial na estrada da história da vida na Terra é a espécie Wolbachia pipientis, uma Rickettsiacea.

Uma célula de inseto hospedando algumas Wolbachias (os círculos). A dominatrix da Biosfera
Uma bactéria endossimbionte obrigatória, ou seja que não é possível cultivá-la ou a remover de seu hospedeiro sem causar alguma alteração fisiológica no mesmo. Extremamente sexista (se as feministas fossem escolher algum mascote seria esta a ideal) onde na sua presença a proporção de machos e fêmeas é alterada (normalmente fica em torno de 50%) e ainda são mestras na manipulação sexual do hospedeiro. Elas pegam carona nos óvulos das fêmeas, assim sendo transmitidas a sua prole.

Wolbachia está em seus óvulos, matando os seus machos!

Os principais efeitos no hospedeiro são: morte dos machos na prole, partenogênese (quando não há necessidade de fusão de gametas do sexo oposto), ou seja o animal teria somente uma mãe e nenhum pai, transformação de machos em fêmeas e incompatibilidade citoplasmática (quando uma estirpe, um tipo de bactéria da fêmea não é compatível com a estirpe do macho) o que leva a morte de praticamente toda a prole do acasalamento.
É o parasita mais bem sucedido de toda a biosfera, praticamente 70% dos invertebrados possuem Wolbachias em seus corpos, de moscas da fruta, aranhas, escorpiões, crustáceos, borboletas e alguns vermes nematóides, o que nos traz um paradoxo, pois se ela altera tanto a "sexualidade" dos seus hospedeiros, causando um genocídio de machos, por que esta relação simbiótica é tão persistente?

Algumas das manipulações na fecundação entre seus hospedeiros.

Bom, foi descoberto que em algumas espécies de Drosophilas (as moscas da frutas) que estas estão protegidas contra alguns vírus de RNA, na presença destes endossimbiontes, o que torna "incerto" o conceito de parasitismo e mutualismo, não sendo algo eternamente estático, mas sim um conceito que possui uma certa plasticidade.
Não bastasse elas pegarem carona nos ovos e filhotes de outros organismos, existe a evidência dramática, onde em pelo menos uma espécie da mosca hawaiana Drosophila ananassae, possui o genoma inteiro da Wolbachia, praticamente 1 milhão de pares de bases, incrustado em seu cromossomo 2, além de pedaços de outros genes da bactéria nos genomas de vespas, besouros e nematóides através da transferência horizontal gênica. Melhor carona que esta é impossível!
Alguns teóricos especulam que a Wolbachia poderia dar origem a uma nova organela, da mesma forma que a mitocôndria e o cloroplasto surgiram na teia da vida, mas num futuro distante...

A flecha indica o genoma da wolbachia em verde, no cromossomo politênico de Drosophila.

Agora imagine se existisse algum organismo que assume o controle da vida sexual dos seres humanos, e manipulasse a razão macho/fêmea dando ênfase ao nascimento somente de mulheres! Um tema abordado na HQ "Y o último homem", isso se sobrassem homens para deslumbrar tal mundo... Mas deixaremos estas últimas palavras para os escritores de ficção científica...

Referências:

Zimmer, C. (2001). Wolbachia: A Tale of Sex and Survival Science, 292 (5519), 1093-1095 DOI: 10.1126/science.292.5519.1093

Teixeira, L., Ferreira, �., & Ashburner, M. (2008). The Bacterial Symbiont Wolbachia Induces Resistance to RNA Viral Infections in Drosophila melanogaster PLoS Biology, 6 (12) DOI: 10.1371/journal.pbio.1000002

Hotopp, J., Clark, M., Oliveira, D., Foster, J., Fischer, P., Torres, M., Giebel, J., Kumar, N., Ishmael, N., Wang, S., Ingram, J., Nene, R., Shepard, J., Tomkins, J., Richards, S., Spiro, D., Ghedin, E., Slatko, B., Tettelin, H., & Werren, J. (2007). Widespread Lateral Gene Transfer from Intracellular Bacteria to Multicellular Eukaryotes Science, 317 (5845), 1753-1756 DOI: 10.1126/science.1142490

Imagens: infelizmente perdi as referências de algumas...


6 Response to "O Guia do Mochileiro dos Genomas"

  • Felipe Freitas de Castro Says:

    Pá Muito bom...texto coeso e sem delongas...parabéns!


  • relber Says:

    Muito legal o que escrevestes...
    Nos leva a reflexões para além-mar...hehehe... Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
    Parabéns...


  • Natália Says:

    Além de tantas outras, acho que a palavra "plasticidade", que tu bem utilizou no texto, é uma das capacidades que mais geram sucesso na natureza.
    Nós humanos poderíamos parar de nos colocar à parte deste mundo e cunhar esse termo em nosso dia-a-dia mais frequentemente, inclusive.
    Graaaande Wolbachia, lições de vida mil!


  • Thiago Zoroastro Says:

    tambem achei massa o seu texto cara, é incrivel como existem diversas formas de relações entre machos e fêmeas, pois afinal a natureza está bem longe de ter "padrões"...


  • L. Felipe Benites Says:

    Biologia é a ciência onde existem mais exceção do que regras. Portanto de acordo com a lógica, se há exceção não há regra! o que podemos é observar padrões...
    Viva a biologia, ciência única!


  • Thiago Zoroastro Says:

    Pois bem, se há regras podem haver exceções, o negócio é saber primeiro é que, se há regras, quais são rsrs. é, podemos até observar padrões, mas a biodiversidade faz com que os padrões sejam de características básicas? Ou a biodiversidade por si só é um padrão/normalidade?