As amantes dos cabelos das preguiças

Você olha para uma árvore. Lá em cima. Um animal com o olhar tristonho. Um tanto relutante, talvez. Você nota que seus pelos são esverdeados, quase misturando-se com os tons dos líquens que também vivem nestas mesmas árvores. Essa cor verde, confere um bom disfarce para o animal. Embora não seja um primata, lembra muito os membros da nossa familia, possívelmente pela convergência nos ambientes arbóreos. Tão bonito em seu silêncio. Pois, enfim você percebe que esta encantado por esse animal, uma preguiça.


Mas o encantamento não para por ai. Imagine que você está provido de um microscópio e resolve examinar minuciosamente estes cabelos, os seus pêlos esverdeados. daí você encontra milhares de outros organismos menores vivendo por ali. Claro, muitos piolhos, acáros e aranhas, mas também descobre que lá dentro, na superfície e também profundamente, vivem algas verdes! pequenos seres que "comem" as partículas do sol.



As algas da espécie Trichophilus welckeri, receberam este nome pois Trichophilus significa "amante dos pêlos" e foi descoberto que esta espécie existe somente em associação com o animal, numa simbiose mutualista, profunda e duradoura. Os pêlos absorvem água, e acabam tornando-se um local ideal para as algas, e a sobrevivência das algas de certa forma, contribuem na camuflagem da preguiça.
Agora só resta saber quem ama mais. A pequeníssima alga verde ou a esverdeada e sonolenta preguiça...


Nestes links é possível encontrar maiores informações sobre as evidencias moleculares, filogenia das algas e sobre a simbiose entre estes dois organismos:


SUUTARI. M. et al. Molecular evidence for a diverse green algal community growing in the hair of sloths and a specific association with Trichophilus welckeri (Chlorophyta, Ulvophyceae). BMC Evolutionary Biology.

http://www.helsinki.fi/research/news/2010/week15.html

Imagens:
http://cabinetmagazine.org/events/images/sloth
http://view3.picapp.com/pictures.photo/image/9606758/baby-sloth-fed-teresa/baby-sloth-fed-teresa.jpg


Saturno em Setembro

Nasce Setembro, e 31 anos atrás, a sonda Pioneer 11 foi passear próxima a Saturno... Tenho um pequeno caso de amor com os planetas gigantes, talvez por eles serem tão pesados e massivos, pelo cinturão de gelo que existe em alguns, e principalmente por suas incríveis luas...Mas o que é mais incrível que direcionar um objeto para as estrelas?
Antes da Pioneer 11, veio a Pioneer 10, aquela que carrega uma placa de ouro e nos descreve e diz aonde estamos a quem se interessar...

"Pioneer 10 will continue to coast silently as a ghost ship through deep space into interstellar space, heading generally for the red star Aldebaran, which forms the eye of the constellation Taurus (The Bull). Aldebaran is about 68 light years away. It will take Pioneer 10 more than 2 million years to reach it.
Its sister ship, Pioneer 11, ended its mission Sept. 30, 1995, when the last transmission from the spacecraft was received."

Daqui a 2 milhões de anos, Pionner 10 atinge a "constelação" de Touro, mais precisamente a estrela Aldebaran. Pionerr 11 cortou comunicações há 15 anos.

Longe de casa


"I know that the molecules

in my body are

traceable to phenomena in the cosmos.

That makes me want to grab people in the street and say,



‘have
you heard this?!’



-Neil deGrasse Tyson

Ciência que rouba

Li em algum lugar, talvez no blog do Mauro, que o melhor lugar para se fazer ciência não é sempre no laboratório, e sim muitas vezes em uma mesa de bar.

Alguns dias atrás, num boteco no centro antigo de Curitiba estava eu e meu grande amigo Químico, o Giorgio, conversando sobre o ensino de ciências, ambos já lecionamos, e obviamente já fomos (e ainda somos) estudantes. O tema principal foi a Eletrodinâmica e a Cromodinâmica Quântica, a Epigenética, metaloproteínas, ligações orgânometálicas, transposons e agentes quelantes. MINDFUCK!Mas isso foi só pano de fundo, a ciência, pois a grande questão em meio aos copos de cerveja e o frio estranho a mim, foi o porque dos métodos de lecionar ciência eram tão chatos quando estávamos na escola (e ainda é?), o que nos admira estarmos fazendo uma graduação em licenciatura em ciências e com objetivos de passar esse conhecimento para frente.
E pelas notícias do ministério da educação, falta professores de ciências, e os poucos com formação na área e já lecionam, tornam a matéria dura, enfadonha, e simplesmente chata!!!o que fazer na nossa humilde opinião? Introduzir exatamente estes assuntos complexos, que conversamos no bar, em tom de conversa, com o objetivo de "roubar "a atenção dos estudantes! certo que a primeira vista é paradoxal, ensinar por exemplo, a Relatividade, quando os alunos mal compreendem ou não gostam da física Newtoniana, mas a idéia é exatamente seduzir mesmo! através destes temas considerados "esotéricos", um roubo no sentido mais belo da palavra. Dai então ficaria mais suave a transição para outros temas mais "prosaicos", que são aqueles que a gente vê na escola, e claro no dia a dia.

E o mais precioso, o catalisador dessa sedução é o professor, ele que irá mostrar como é esse método especial de descobrir as coisas, que é a ciência. Que nada tira da beleza do mundo, mas só adiciona. Abrir as janelas da mente... Parece utópico eu sei, mas das vezes que toquei em assuntos complexos em aulas, os olhos da gurizada brilhavam, com esse mundo novo, grande e assombroso que se descortina quando estudamos a natureza das coisas através da ciência.
Tem o efeito Mpemba, descoberto por um estudante secundário africano, e que consiste no fato da água morna congelar mais rápido do que agua fria! muitas pessoas duvidam desse fato, mas então faça o seguinte, peça para a pessoa, ou seu aluno ir para casa e tentar reproduzir esse fenômeno, anotar os resultados e comparar com a teoria, agora sim, isso é ciência, e isso que a distingue de outros saberes, é um saber que te dá a possibilidade de confirmação e refutação pessoal de certas teorias.

J. Robert Oppenheimer

Então, dessa forma poderemos começar a falar de uma real educação científica. Que não pode se limitar a transmissão de dados, decoreba, e passar em provas... Certo, ainda há muitos "Muros" para impedir essas ações, essas conversas, mas comece em sua casa, em seu bar favorito, na sua sala de aula, daí sim alguma coisa importante poderá surgir disso.

O termo ciência que rouba foi um problema meu de tradução do espanhol, de uma série sobre ciências "Ciencia que ladra". Mas eu gostei!

Imagem: aqui.

Extinção e esquecimento


"Todos os meus amigos estão mortos...
Assim como os Brontossauros (apatossauros)
.
A maioria dos meus amigos estão mortos...
Assim como o Dodô.
Todos os meus amigos expiraram na terça...

Assim como o leite."

Livro de Avery Monsen e Jory John, minha próxima aquisição aqui... Existe um poema lindo de John Griffin: Extinction, leiam...

Beleza Marciana

Falar sobre a beleza. E eu entendo disso? não sou uma pessoa bonita, e talvez por isso (mas não somente) me interesso por demais sobre essa palavra inventada para descrever algo grandioso, ou pequeníssimo, desconhecido, fulgurante, que remove o ar dos pulmões, que aumenta os batimentos de um coração velho que surgiu provavelmente em "peixes" ou vermes ancestrais... Então, alguém inventa palavras curtas. bonito, beleza, belo e boniteza para descrever essa sensação, por lógica no pensamento.
Já ouvi artistas, poetas e filósofos dizerem que a ciência remove a beleza das coisas. Marte era o Deus Romano da guerra, da força e onipotência, um conquistador.

Os mitos antigos descreviam-o assim, e a Astrologia, um sistema antigo de idéias que sustenta que os movimentos aparentes dos astros influenciam, e nos guiam aqui na terra, milhões de quilômetros e anos de distancia das estrelas, e das imaginárias constelações., mas não somente do destino e nascimento das pessoas, mas sim até de empresas!!! Mas o que sabemos de fato sobre Marte? É um planeta frio, com uma frágil atmosfera, com geografias suspeitas por serem formadas por rios, lagos e oceanos alienígenas, a pelo menos 2 bilhões de anos atrás. Lá existe o maior canion do sistema solar, Valles Marineris ( o vale do marinheiro, com 3.000 km de comp. e 8 km de profund.) e a descomunal montanha (um vulcão na verdade) conhecido como Olympus Mons (monte olimpo, 27 km de altura).

Também há gelo nas calotas polares, formado por dióxido de carbono, e recentes evidências de água (tive uma felicidade imensa em saber, que precisava comemorar com uma pessoa que mantém diálogos com montanhas agora, lindos e cheios de gagueiras)...
Mas daí surge a pergunta, a ciência, que é um meio de descobrir as coisas, um método especial e muito cuidadoso de conhecer e descrever a sutileza do Cosmos, retira a beleza de Marte? Não, meus caros, só adiciona...

O sonhos de um dia ver o por do sol rosado daquele mundo estranho, suas areias tão antigas quanto nós, e imagine a primeira pegada humana nessa areia fria? não posso, e não consigo pensar que isso não é lindo. E que é belo saber isso.
Mas não precisa ter toda essa explicação minuciosa, cartográfica, psicológica, química para ser bonito.
Descartes estudou os arco-íris, por causa do fenômeno da luz atravessando confusa por partículas de água e poeira na atmosfera? ou será que era por que ele os achava terrivelmente belos? Pense nisso...

(Post de despedida de uns dias, e fortemente inspirado nas palavras do "Dick" Feynman)

Referências e Imagens: Porto do céu. Ny Daily News. Nasa. PopSci. Wikipedia. Física.cab.cnea.gov.ar

Conversar com as moscas


"Sabía perfectamente, que los humanos resultan demasiado jactansiosos, que jamás descenderían a conversar com las moscas, a aceptar um terreno neutro em que dialogar de igual a igual, donde pudiera producirse uma desablé transacción de memorya e secretos."


(Luiz Manuel Ruiz, Él critério de las moscas, Madrid, Suma de Letras, 1998)


Mas penso muito diferente, e carrego as palavras abaixo comigo...

"É muito bom estar entre os que conversam com as moscas e com elas trocam memórias, segredos e assim, descobrem coisas sobre a vida..."

(Prof. Dr. Elgion Loreto da Silva -UFSM)

Imagem: Pop-Ology

A função da natureza

Série de imagens por Nikki Graziano, fotógrafa e matemática, demonstrando as funções nas sombras, arbustos, nuvens e montanhas de areia e gelo.
A estrutura do universo é matemática pura, linda e compreensível. Mas nos deixa com cara de bobo, e não adianta se perguntar "por que é assim?". É, somente.

Vou construir um cérebro!


Quando um louco sonha com o maquinário do Universo

Conhecer a si mesmo. Em que sentido? o que há para ser conhecido? sinceramente, não entendo muito quando alguem diz que é preciso se conhecer. Alguns vão para análise, outros fecham-se em suas conchas nautilóides e iniciam um processo qualquer para se entender. Outros vão para uma mesa de bar ou café e ficam olhando as pessoas, a fumaça se misturando as nuvens e ouvindo o barulho do açucar e dos saquinhos de chá sendo deitados em água quente. E outros ainda deixam de lado essa busca...
Tenho pensado muito, demais, sobre a loucura, sanidade, a morte, vida, e certos processos que surgiram tardiamente na história biológica, como o sexo e o amor. Um bom livro que me acompanhou foi "Um louco sonha a máquina Universal" sobre as histórias de Kurt Gödel e Alan Turing, dois gênios matemáticos e com vidas destroçadas pela realidade.
"Essas duas pessoas convergem na história e divergem nas crenças...Ambas estão inebriadas de matemática. Mas, apesar de toda a devoção delas, a matemática é indiferente, inalterável por qualquer de seus dramas...Um mais um sempre será dois. Suas vidas dilaceradas são meros episódios à margem de suas descobertas."

Como tenho passado um tempo generoso sozinho, tenho conversado comigo mesmo, nao só durante ao dias, mas principalemente em sonhos (mas nao é com nós mesmos que falamos dormindo?) e algumas semanas atrás, antes de apresentar meu projeto, relutante de certa forma, e decido a nao trazer a público meus esforços, sonhei um dialógo com um dos professores que iriam compor a mesa, um professor de microbiologia formado numa Universidade importante da França, e ele dizia algo do tipo "Tu tens de provar para mim que tua hipótese está correta" ou utilizava de inversões do ônus da prova, já que ele dizia que ela estava errada e que ele não teria que me apontar os erros, enfim uma bagunça. E chega o dia da apresentação, e ao terminar de expor meus métodos e resultados, o mesmo professor que eu tinha sonhado me diz algo como: "Bom, o que é que vou te perguntar..." com isso levantando um riso alto das pessoas que estavam assistindo a mostra de iniciação científica.
Conheço muita gente que anseia pela loucura, como se fosse uma coisa terrivelmente boa. Não sei, só conheço a minha loucura, que é decorrente de uma doença ancestral ampliada pelo ambiente, e que me agarro enquanto posso, enquanto ela me guia para máquinas cada vez mais complexas, indecifráveis e estranhamente sedutoras.
Então o amor, as conchas de argonautas, as proteínas bacterianas incrustadas nos genomas de vermes e as equações da loucura nos conduzem até o final da vida. que espero que seja breve mas com essas coisas novamente, tudo de novo até gastar e cansar.

Imagem: aqui
Referências: Levin, Janna. "Um louco sonha a máquina universal" São Paulo, Companhia das Letras, 2009.